Sabores vão e voltam

Prefácio que escrevi para o livro Diário da Cozinheira, de Carla Pernambuco

Diário Da Cozinheira Carla Pernambuco capa
 

 

Por Cristina Ramalho

Tem pessoas que sempre lembram primeiro do que comeram – e depois localizam o prato no momento da vida. As madeleines de Carla trazem também paisagens variadas. Lembrança da infância? A cena do flashback é uma Carlinha, quatro anos desabrochando na ultraminissaia, escolhendo com dona Nelly o sorvete em taça que vinha com colherinha de prata na Confeitaria Colombo, “das primeiras vezes que fui ao Rio”. E é só puxar um fio da sua natureza, ano a ano, para surgirem os presuntos de Punta Del Este que ela e o pai adoravam, ou o momento de afeto com o pai no sorvete saboreado aos poucos, corpo encostado no Simca Chambord rabo-de-peixe.

Nas férias com os avós paternos, o ritual de matar um porco nas fazendas de Don Pedrito ou de Santa Maria, onde legal mesmo era comer bife de cordeiro, os pratos temperados e sublimes da babá Baiana, e não demorou olha a Carla brotinho, cabeluda, comendo a torta de maçã da Brenda na praia de Imbituba, dando beijos nos surfistas, aquele sol, o pé fazendo suish na areia…

As descobertas da vida foram se misturando com os roteiros: o primeiro croissant quentinho em Paris, o café com doce no Café Danesi, em Roma, onde ela roubou o cardápio, porque Danesi é seu sobrenome de solteira e um souvenir desses, quando arrumar outro? Os temperos no Marrocos na viagem que ganhou de adolescência, e da qual voltou outra, outro figurino, outras estradas, e uma mania de ir na direção contrária. Quando Carla já estava quase caindo do galho de tão amadurecida, morando em Nova York, confirmou o que intuitivamente todo mundo que gosta de comer e cozinhar já sabe: que a comida é assim, uma combinação de memórias, viagens, inteligência, leituras, conversas. Descobriu que podia tomar qualquer rumo e misturar o que gostasse, e isso tinha até nome pronto: fusion food.

O primeiro jantar que ela preparou como chef foi tailandês. Os primeiros elogios ao Carlota vinham para sua mistura de ácido com picante, com doce, com salgado, Oriente com comida caseira brasileira e, quando ela distraiu, estava com o pé no jato de novo. E ao pé da letra: fez catering para a primeira classe da Varig.

Então vieram mais vôos, convites, mudanças de rumo, blog, TV, rádio, a disposição de menina para encarar o que viesse, um angu coreano, uma carona de pé estropiado por Portugal, uma pimenta de esquentar os tamborins lá no Peru. E pessoas, muitas, de todos os tipos, que iam lhe ensinando as novas, um jeito de refogar e de ver o mundo, e qualquer coisa de inesperado. Cenário, roteiro, personagens: as comidas de Carla vêm com tudo isso. Mais do que chef, ela é uma entertainer.

Os sabores, como a gente sabe, vão e voltam. Em Portugal ela viu o pessoal da fazenda matar um porco e não é que era quase igual à fazenda lá de Don Pedrito? Um almoço em Porto Alegre com um amigo traz o gosto bom de uma geleia e um tempo que era outro, algumas estradas que ficaram para trás. Uma ida a Londres com a caçula, Julia, e o sorrisão por ver no olho da filha o mesmo deslumbre que Carla teve ali, quando tinha a idade dela. Floriana, a mais velha, se mandou um dia para a Bahia, no outro apareceu de bicicleta para cozinhar com a mãe. Carla olhou a filha e se enxergou em Caixa Prego, em Itaparica, quando sumia nas férias com a turma da faculdade e comia mingau de tapioca depois do mergulho no mar.

Baiana faleceu e Carla escreveu no seu blog um lindo texto sobre ela, sobre o significado tão delicado e profundo de servir o outro. Floriana apareceu no programa de TV e assou com a mãe um palmitão, uma alegria real, que se podia tocar. É a comida dizendo as coisas que a gente nem precisa dizer.

As cenas se repetem, as receitas são capazes de viajar por aí e transbordar de sentido em qualquer lugar, não importa o idioma – é botar a mesa e está feito o convite espontâneo que todo mundo entende. Carla tem essas histórias para contar. Talvez por isso que gosto sempre de escrever sobre ela, e gosto mais ainda de conversar com a Carla e ouvir seus relatos de viagem e as últimas delícias que ela provou. Por reconhecer que em tantas dessas lembranças dela tem qualquer coisa familiar – aquele sentimento de comer num lugar diferente e viver um instante tão bom que aquela cidade já é um pouco nossa. Tanto faz se a gente já viajou para lá ou não.

 

 

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