Dar a cara pra molhar

Jacques Mayol, o mergulhador mais famoso que se tem notícia, dizia que o habitat natural do homem é o oceano. “Nascemos nus, num oceano em miniatura, que é o ventre da mãe”. Nadar, então, seria voltar às origens em todos os sentidos, a melhor das sensações. Sei não. Do próprio ventre saí correndo, prematura, e embora minhas primeiras fotos sejam na praia (morei em Santos quando era bebê), tinha com o mar um acordo tácito: eu não ia além da minha insignificância, ele não perdia tempo comigo.

Nem me lembro da primeira vez que eu vi o mar. Guardei uns deslumbramentos, aquela alegria de gritar quando vem a onda, o azul pertinho da água, o verde lá longe, o coração apressado, as pernas enfiadas na areia, a água escorregando saborosamente por baixo. Um arrepio de medo. O mar. Do peito não passava. Minha mãe, que não botava fé nessa história de água maternal, ficava espiando de longe, um de longe que era bem pertinho. Morria de medo por mim. Ela nunca soube nadar.

Já a praia, às vezes para ela, e sempre para mim, era o melhor dos mundos. Gostávamos de sentar nas cadeiras num dia de sol bom, a conversa despenteada, meio falar de nada, dar umas risadas. De repente batia uma felicidade por nada em especial, era por estar de papo para o ar, sol bom, o pé fazendo suish, suish na areia de talco, na boca um Chicabon.

Muitas vezes ela não estava – e sem suas espiadas eu ia um pouco mais, dançava no vai e vem das ondas, dava meus furos na água. Até que eu fui longe. Umas braçadas em Ubatuba, um mergulho de garrafa em Fernando de Noronha, farra com bóia num cânion no rio São Francisco, flutuar em Bonito, boiar na Tailândia, pular ondas com um amor de mãos entrelaçadas no Nordeste. Voltava para contar minhas descobertas, minha mãe ouvia assustada. Eu adorava me atirar sem olhar. Um sorrisão e a dádiva: sentir o corpo na água.

Mas a cara, não. Minha cara eu não dava para molhar. Nem no chuveiro me atrevia a tomar água no rosto. Nadava o cachorrinhês, pescoço duro, rosto para fora, a deselegância indiscreta numas braçadas sem suingue para chegar logo.  Assim desbravei piscinas, lagos, mares, sempre com aquela eterna sensação de que nasci com alguma coisa errada. O pavor de morrer afogada, o coração disparado, sonhos durante anos de tsunamis gigantes me engolindo. Meu medo de enfiar a cara na água era quase tão grande quanto o medo de ficar sem mãe um dia.

Às vezes a vida fica dolorida e a escuridão do mundo esmaga a gente. Minha mãe morreu. Só me restou ir para o fundo.

Com o empurrão de uma amiga querida fui parar de maiô, touca e 40 anos de vergonha na aula de natação. A vontade de sair correndo. Braços para um lado, pernas para o outro, o corpo troncho – devo estar parecendo um jacaré comendo uma garça.

Dias de tortura. Meia piscina é mais do que uma maratona. Os óculos escondem as lágrimas. O coração dispara. Isso nunca vai dar certo. Nuns dias bate sol, a água fica azulzinha, a boca até fecha antes de eu engolir um balde. Vou pra frente, feliz da vida. Na aula seguinte, mal dou duas braçadas, engasgo, entorto, bebo dois litros, volto dez casas e caio no fosso do dragão. Isso vai ser difícil.

A amiga vem com sorriso otimista. “Você está nadando”. O marido traz lição de vida, aprender é assim mesmo, e olha que beleza, você já atravessou a piscina. Uma terapeuta enxergou a profundidade das relações afetivas. Leio no I Ching que medo e água estão ali, ó, grudados, e agora chegou a hora de nadar em águas mais profundas.

Então um dia, do nada, deslizo na água. As inquietações, por segundos, ficaram para trás. Aprendo a respirar, mas ainda assim só consigo me soltar quando estou com os pés de pato. E a minha cara está inteira na água. Acabaram de inaugurar o mundo. Estou levinha, levinha, solto as bolhas, que orgulho, se eu já tivesse aprendido como não engolir tudo juro que ia abrir um sorrisão. Ah, Jacques Mayol, você tinha razão: mergulhar, a melhor das sensações.

Talvez eu esteja delirando, mas tenho quase certeza que vi minha mãe agarradinha aos meus pés de pato…

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22 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Maria Lígia Mathias Pagenotto
    jul 14, 2011 @ 11:11:47

    Coisa mais linda esse texto, Cris… vontade de rir e chorar. Aproveita muitos seus mergulhos, vai fundo, querida! Beijos

    Responder

  2. textosepesquisas Magaña
    jul 14, 2011 @ 14:56:58

    Cris, texto de se guardar na memória. Biscoito fino. Bjs e saudades.

    Responder

  3. Cássia Fragata
    jul 14, 2011 @ 17:02:15

    Cris, adorei! Saudade das boas de nossas mães e vontade louca de mergulhar cada vez mais fundo. beijos querida!

    Responder

  4. Chris Tsapatsis
    jul 16, 2011 @ 00:20:31

    Estou atrás da Cris Ramalho que estudou comigo, será que é vc? Nos encontramos da última vez no lançamento do seu livro… se for me add no Facebook na próxima semana teremos um encontro com nossa turma de colégio e claro que lembramos de você!

    Responder

  5. Marcelo Burgos
    jul 17, 2011 @ 23:12:07

    poxa Cris, que frase mais fooooodda como diz meu menino de 16 anos: “MInha mãe morreu. Só me restou ir ao fundo. “. O seu texto dá vontade de escrever….
    tudo bem? Nina, lindíssima? Beijos Marcelo. Cai aqui por caminhos facebookianos..

    Responder

    • crisramalho
      jul 18, 2011 @ 01:04:58

      Fez muito bem em cair aqui… e escreva, escreva, que elogio lindo… Tudo bem, NIna linda, em breve posto foto dela, mal entrei no facebook, tô me habituando… e por favor, entre sempre no blog, recomende, espalhe!! Fico super feliz. Beijo enorme.

      Responder

  6. Katia Azevedo
    jul 18, 2011 @ 00:12:48

    Cris querida. Foi ler e me debulhar em prantos. Que coisa mais linda esse texto. Quanta poesia. Lembrei tanto de você e da Gladys. Homenagem maravilhosa! Te adoro! beijo enrome!

    Responder

  7. Beth Lops
    jul 18, 2011 @ 01:45:42

    Ah, minha amiga, você é incrível. Não me canso de dizer que você tem um dos mais belos, sensíveis e poderosos textos que conheço, pois escreve com a alma… Você acredita que conheci Jacques Mayol em Fernando de Noronha, quando estava grávida da Victoria? Seu texto me emocionou bastante, me fez mergulhar na imensidão azul de minhas memórias, me fez dar a cara pra molhar e me fez sorrir também, ao ver que apesar de todos os pesares, encontramos a melhor das sensações quando mergulhamos fundo no oceano da vida. Bjão

    Responder

  8. Sidney mazzoni
    jul 21, 2011 @ 20:46:22

    Minha querida amiga Cris. Sua presença me faz falta. Você, que tantas vezes me fez sorrir nos nossos fechamentos de JT, me fez chorar. De emoção. Seu texto é simplesmente lindo, mágico, indispensável. Posso passar o resto dos meus dias sem saber nadar, como não sei. Mas não gostaria de chegar ao fim sem ter lido estas linhas que minha Natália me enviou.
    Beijos, saudades
    Sidney Mazzoni

    Responder

  9. Luiza
    ago 05, 2011 @ 03:55:04

    mais água: brota dos olhos em cada linha. bjo

    Responder

  10. Luciana Wolf
    ago 17, 2011 @ 13:16:21

    Cris, ADOREI! é um orgulho aprender a nadar, né? sensação indispensável nessa vida! Muitos beijos

    Responder

  11. Rosangela Ferreira
    ago 26, 2013 @ 08:25:47

    Que delícia de texto sensível e real, Cris. Sempre fundo nas emoções. bjs

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  12. Olivia Rogeria Gomes
    ago 26, 2013 @ 22:57:21

    Acabei de ler….vou conseguir escrever o que penso, assim que conseguir enxergar!!!Voce escreve com a alma e desnuda a alma dos outros.A gente fica com a emoção a flor da pele……..

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  13. claudiagiudice2014
    nov 08, 2014 @ 16:09:54

    Adorei, Cris, esta sua primeira vez. Obrigada por compartilhar comigo o seu blog, que agora também será “meu”. beijo

    Responder

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