Obrigada, Wilza

 “Sabia que a Wilza Carla era linda? É, menina, parece que foi miss, tinha uma cinturinha, passou uma tintura no cabelo que deu problema de hormônio e engordou sem parar”. A história corria pelo recreio da escola, contada rápido em vozes agudinhas, assombrando as tardes quase tanto quanto a loira do banheiro (uma loira que nos aguardava na calada das cabines para asssassinar a gente). Só que a do banheiro era fantasma. Agora imagina o horror: pintar o cabelo e da noite para o dia acordar, na realidade, como a Dona Redonda na novela Saramandaia? (Aqui vale explicação histórica para os abaixo de 40: Dona Redonda, a Wilza Carla, comia sem parar, e foi aumentando, aumentando, até que um dia explodiu na novela de Dias Gomes).

Wilza era sempre o pesadelo nos filmes da Sala Especial, nos comerciais, no Trapalhões. Um Freddy Krueger de 150 quilos de disposição libidinosa, os lábios carmim prontos para o beijo, arma mais letal que uma serra elétrica correndo atrás dos rapazes exibidos que queriam apanhar as mais bonitas. Wilza era o cadernetão que prometia juros altíssimos na poupança, a fartura que fazia rir metida nas fantasias do concurso do hotel Glória no carnaval. Ah, Wilza era a imagem do fim da linha para as meninas de 13 anos loucas para serem aceitas.

Olhando mais de pertinho, Wilza Carla era uma mulher corajosa e colorida, que achou seu pedaço na TV assim como a Elke Maravilha, a inclassificável Rogéria, ou, no oposto complementar, a “biscoito” Zezé Macedo. Uma linhagem deliciosa de garotas absurdas que não se fazem mais, e deixavam a nossa vida muito mais divertida.

Mas com os pedaços da Dona Redonda, numa espécie de Big Bang que continuou espalhando os destroços por anos afora, surgiu toda uma onda de moças perdidas ali pelos 60 quilos, rebolando entre a dieta do dr. Atkins e a de Beverly Hills, e mais tarde leitoras do Ele não está tão a fim de você. Algumas mantiveram a cinturinha e continuam uns chuchus, outras se esgoelam no tamanho M e reclamam dos homens que correm de medo das mulheres fortes, há as que se abandonaram à própria sorte, as mais bem humoradas levam suas histórias com graça. Vão todas se encontrar dia desses numa festa de 30 anos do ginásio e comentar, um ar de nostalgia quase melancólico: “Viram que a Wilza Carla morreu, tadinha?”

“Ela era linda, uma cinturinha, tinha uma história meio absurda de que foi pintar o cabelo e teve um problema de hormônio, engordou daquele jeito…” Risadas. Elas vão se olhar meio sem graça, dar aquela rápida escaneada para ver quem mais mudou de peso… O sorriso satisfeito no ar quando o foco parar na Detinha, justo a Detinha, que era muito bonitinha e muito senhora da sua beleza, por isso mesmo perversa que só ela. A Detinha que ia com a saia mais curta no colégio e achava ri-dí-cu-la qualquer outra menina, por qualquer coisa, a Detinha que adorava encostar no balcão da cantina e zoar a gorducha que comia uma coxinha (“olha a dona Redonda!”), a Detinha que foi lá e beijou o Mateus antes da Ludmila, pois a Detinha terá aumentado bem uns dez manequins.

Aí vai ficar aquele silêncio culpado, sabe como é. As outras todas de olhar baixo. Então quer dizer que a praga da tintura no cabelo… Que Deus perdoe, mas lá no fundo elas só vão pensar uma coisa: “Obrigada, Wilza”.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Maria Lígia Mathias Pagenotto
    jun 25, 2011 @ 21:41:19

    Oi, Cris, foi bom vc ter me convidado a vir aqui de novo! A vida corrida faz com que a gente esqueça de todo dia pegar uma flor do ramalhete… Amei esse texto sobre a Wilza. Obrigada digo eu, querida!
    Beijos

    Responder

  2. crisramalho
    jun 26, 2011 @ 21:56:23

    que lindo, Malipa, obrigada.
    beijo
    cris

    Responder

  3. Katia Azevedo
    jun 27, 2011 @ 01:54:44

    Tô com a Malipa, e invejosa dessas minhas amigas tão criativas. Quanto ao texto nem preciso dizer né???!!! Amei. Tenho as mesmas lembrnças da Wilza e uma eterna dúvida: Será que a história da tinta de cabelo era balela??? rsrsrs
    beijão

    Responder

  4. Sílvia Murachco
    jun 28, 2011 @ 16:43:26

    Enfim te visitando, voltarei…
    Obrigada Wilza, Cris Querida

    Responder

  5. Jô Elias
    jun 29, 2011 @ 23:13:37

    Deliciosa a crônica sobre a Wilza Carla e a lenda da tinta no cabelo. Adorei este trecho: “Um Freddy Krueger de 150 quilos de disposição libidinosa, os lábios carmim prontos para o beijo, arma mais letal que uma serra elétrica correndo atrás dos rapazes exibidos…”

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