Je t’aime, moi non…

Fotos: Ana Ottoni  – o sujeito na imagem é o músico e performer Antulio Madureira, mostrando que às vezes só o estilo roots para apanhar uma moça de cintura fina

… Serge Gainsbourg, com aquela estampa, apanhava as melhores moças do seu tempo porque era bom de lábia e, aposto, usava o glamour na hora certa. Tudo bem que as moças andam reclamantes demais, mas bem que a rapaziada podia aproveitar o dia dos namorados que se aproxima e esbanjar mais verba em charme na dança do acasalamento. Sim, pedir champanhe é óbvio, só que diante de uma garrafa não há quem não sinta aquele arrepiozinho: vem romance aí… E se faltam argumentos, é só lembrar da espertíssima Marlene Dietrich, que dizia:  “Champanhe faz a gente pensar que é domingo, e dias melhores estão logo ali na esquina”. Para celebrar, até escrevi uma historinha:

Je t’aime

  Houve um tempo em que um champanhe no gelo, o hálito perfumado e os bons modos faziam maravilhas por qualquer sujeito conquistador. Tudo isso ainda conta grandes pontos na dança do acasalamento, mas os moços quase sempre esquecem as mesuras, as moças andam cada vez mais petulantes e o glamour tem escorregado na pressa do mundo. Ah, que falta de touché! Porque meu amigo, se você quiser mesmo transbordar naquela noite, tem de pedir champanhe. O legítimo, claro: francês, da região de Champanhe, onde as bolhas alcançam o estágio mais alto da alma do negócio. Só a chegada da garrafa na mesa já causa aquele frisson. Não é à toa que nas melhores cenas as moças dão risadinhas a cada gole nas bolhinhas, e que as não muito lindas ganham charme extra quanto mais você bebe. Champanhe, estamos conversados, faz maravilhas pela humanidade.

   Também não é de admirar que em boa parte das canções românticas, das mais charmosas às escandalosamente cafonas, botam champanhe no verso. “You go to my head…like the bubbles in a glass of champagne” (“Você me sobe à cabeça…como as bolhas de uma taça de champanhe”, em You Go To My Head, standard na voz chique de Dinah Washington); ou “Champagne  per brindare a un incontro” (em alguma cantina você já ouviu essa com Peppino di Capri). Até no rap dos combativos Racionais o champanhe entrou como elemento de conquista: “Eu ponho pânico, peço champanhe no gelo/aquele balde prateado, em cima da mesa/ dá o clima da noite, uma caixa de surpresa” canta o Mano Brown em Estilo Cachorro. Cada um a seu modo apostando no clássico efeito da bebida que Mademoiselle Coco Chanel, uma das mulheres mais sabidas da história, gostava de anunciar: “Bebo champanhe quando estou apaixonada e mais ainda quando não estou”.

Como tudo que é sedutor, o champanhe vem cercado de incoerências: dá logo idéia de pecado, mas foi criado por um monge pacato, o beneditino Don Pérignon (1668-1715). Você já deve saber, mas não custa repetir: quando o monge provou o vinho mais fermentado que de costume, e fortemente cerrado com uma rolha, se derreteu: “Estou bebendo estrelas”. Anteviu, bidu, que uma bebida mágica dessas serviria à celebração, à festa – embora nascida na região de Champanhe, onde aconteceram várias das batalhas mais sangrentas que se tem notícia no Ocidente.

 Onde tem champanhe, tem idéia marota. A taça, por exemplo: agora é aquela flüte, mais adequada, dizem, para se sentir os efeitos da bebida. Até pouco tempo eram as taças baixas, arredondadas que – não, você não bebeu demais – lembram um sutiã. Não é por acaso: as primeiras taças foram inspiradas no decote de Madame Pompadour, amante do rei Luís XV (1710-1774). Madame se assanhava com a bebida, e essa história de nobre saltitante e corado fez o champanhe ser abolido na França durante a estóica Revolução Francesa. Coube a Napoleão Bonaparte trazer o champanhe de volta, glorioso: “Nas vitórias é merecido, nas derrotas é necessário”, dizia ele.

Com uma história dessas, e um efeito devastador, o champanhe por si só já se incumbe de toda a farra, mas é bom forrar o estômago com classe condizente. Como, leitora? O rapaz vai pedir champanhe? Se vier com ostras ou, melhor ainda, caviar, ele não está brincando. Derreta-se. Esse homem merece. Agora, se você, leitor, estiver diante de uma moça que salpica glamour na bebida – algo como jogar um morango dentro da taça e mordiscá-lo depois, distraída, então agarre-a já. Essa é especial. É da categoria de Brigitte Montfort, a espiã de livros de bolso, espécie de James Bond de saias, que só bebia Don Pérignon com cerejas frescas. Portanto, aqui vai um pitaco de aconselhamento: diante da moça, não regule as gentilezas. Peça um bom champanhe. Ela vai flutuar… E se você somar às bolhinhas um papo espirituoso, uma grande história de amor pode se anunciar. Vale a pena, rapaz.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Maria Lígia Mathias Pagenotto
    jun 07, 2011 @ 11:33:14

    Como não gostar de Ramalhetes, se traz um pouco da essência da queridíssima Cris Ramalho? E essa essência tá cheia de doçura, humor, carinho, emoção. Poxa, Cris, que presentão receber este blog, que delícia ler essas coisas, cada dia um pouco, devagar, desfrutando de um belo ramalhete, olhando cada flor com a delicadeza que ela merece, achando-a especial no meio de várias.
    Vou fazer isso e meu dia será sempre melhor, tenho certeza.

    Grande beijo e parabéns pelo belíssimo trabalho! Ele tem a sua cara em tudo, parabéns pra Lu Cury, Ana, pelo visual, bom gosto, beleza, elegância, charme.
    Amei! E tenho saudade de vc, precisamos fazer um brinde pra celebrar a chegada deste Ramalhete em pleno outono,
    Malipa

    Responder

  2. Fernanda Bô
    jun 08, 2011 @ 19:06:27

    Que textos prazerosos Cris! Acabei de ficar um bomtempo me deliciando com eles! Que gostoso ter vc assim mais pertinho!
    Beijos enormes, parabéns e super obrigada pelo presente dos seus textos assim tão a cotè…

    Responder

  3. fashiondetox
    jun 17, 2011 @ 20:40:51

    Cris, estou em débito com vc e aproveitei o congestionamento para colher um ramalhete de Cris e pude escutar a sua voz.
    Adorei o blog, o nome, tudo. Queria que todos os homens (na verdade com o foco num só) lessem essa cronica. Bjs e nos vemos amanha!

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