tá na rua

Engenhosa é Dona Pequena: para resolver um problema crônico de pálpebras caídas, teve um estalo de embasbacar Ivo Pitanguy. Bolou uns óculos sem lente (“não tenho problema na vista”, explica) com hastes extras que seguram as pálpebras feito clipes. Desfila agora com os olhos abertos para o mundo. Quem precisa de plástica, afinal?
Jorge Luiz, vendedor de pacotinhos de amendoim, também não se aperta. Enxerga no lixo a solução para a própria sobrevivência. Uma lata de mantimentos, recortada, transforma-se em fogareiro onde os saquinhos de amendoim aparecem dispostos como num carrossel _ criado a partir de um filtro de automóvel. “Com certeza a criatividade é um fator que pode
fazer a vida melhor”, diz ele, deitando filosofia no ofício. “Eu acho que se você tiver um pouquinho assim de criatividade, deixa o resto com o Rei, que Deus faz. Tem que ter força de vontade. Ter criatividade sem ter força também não adianta”, ensina.
Dona Pequena, Jorge Luiz, Zé Carlos (que inventou o “Mitsbichi”, um aparelho de som acoplado a um carrinho de supermercado, levando música para todo lugar), Nazaré, Neco, Seu Pelé… estão todos por aí, rebolando para caber na vida real.  Uma turma inventiva que foi captada com açúcar, com afeto, pelo olhar de uma jovem designer carioca, Gabriela de Gusmão Pereira, 29 anos. De1998 a2001, Gabriela percorreu o centro do Rio de Janeiro, atenta às idéias práticas e poéticas de quem vive pelas ruas. O resultado foi um livro/ensaio encantador, “Rua dos Inventos” (ed. Francisco Alves). Editado pela lei Rouanet com patrocínio da IBM, virou exposição, que passou por Rio, Salvador e São Paulo. Resultou depois em outro livro: “A arte da sobrevivência”, bilíngue, editado pela Ouro Azul. Estes livros, vendidos da Livraria da Travessa, no Rio, e também fáceis de achar na Internet, têm de ser mais vistos — o trabalho da Gabriela é um primor de generosidade e sacada genial de design.

“Procurei colher, na rua, imagens de uma evidência quase invisível. Arranjos de objetos achados, improvisados ou inventados para desenhar a realidade inadiável, a cada dia”, diz ela. Os personagens foram dispostos em dois grandes capítulos: Inventos Ambulantes (com objetos de vendedores ambulantes, cartazes curiosos, brinquedos para distrair) e Inventores Perambulantes (os que moram na rua, como fazem suas “casas”, o que pensam da vida). Suas criações, fotografadas, aparecem também detalhadas em receitas de como fazer e esboços gráficos, tal qual as peças de design industrial.

“Eu quis mostrar como as pessoas criam, a procura por soluções de design. Minha idéia não é defender os miseráveis, nem como orgulho da nação, nem como exóticos ou folclóricos”, fala Gabriela. Não há mesmo tinta paternalista ou tom assistencial no livro. Apesar disso, e do bom-humor dos entrevistados, em certas horas fica difícil não engolir umas lágrimas diante das histórias dolorosas. A própria Gabriela, ainda que fugindo de armadilhas do melodrama, confessa ter se emocionado demais com João Paixão, um sujeito com grave defeito na perna, que faz desenhos, poesias e anda para todo canto com uma varinha, em cuja ponta há uma espécie de pingente protetor. “A varinha é o objeto mais significativo de todos do livro. Acho incrível como uma pessoa é capaz de suportar tanta dor e sublimar isso criando algo tão simbólico”, diz.

Cada um desses inventores, numa paciente intimidade com as mágoas, arranjou jeitos formidáveis de lidar com os altos e baixos da existência. E nos dão a verdadeira aula do que é ser essencial: se virar com o que se tem. As grades de um portão servem para um varal com certa poesia. Tampinhas de refrigerante, pregos e tábua fazem um capacho. Cortado, o fundo de uma garrafa PET de água, feito apetrecho de história da Cinderela, vira uma taça para tomar qualquer bebida com mais elegância do que no gargalo. O camaleônico caixote de madeira pode ser mesa, armário de cozinha, base de fogão, cadeira, prateleira _ todos aqueles equipamentos que qualquer um de nós tem em casa, maquiados com materiais mais nobres.
Uns são práticos. Outros, como em qualquer lugar no mundo, estão mais para cigarra do que para formiga. Investem na fantasia. Neco sonhou com um avião na mão. Em um mês foi recolhendo tralhas e, seguindo o método tentativa-e-erro, materializou um belo aviãozinho com 12 latinhas, 10 pregos, 2 chapinhas de garrafa, papelão, madeira e cortiça. Seu Pelé, mais exagerado, quis um triciclo que parasse o trânsito: gastou 98 rolos de fita amarela, luzes de Natal, fitas cassete, extintor de incêndio, televisão, 2 despertadores e um aparelho de som 3 em 1 _ e hoje aluga o invento até para propaganda. Walmir, que se define como “teológico de todas as coisas que existem na Terra”, bolou um chapéu sexual, que “muda toda a pessoa”.

Gabriela foi descobrindo esses tipos incomparáveis por acaso, por certos trotes de Deus. “Eu encontrei as pessoas mais fundamentais para o livro em situações especiais: no dia do Natal, num dia de Finados em que fui ao cemitério, em outro dia em que saí para beber porque tinha sido jubilada da PUC. E aprendi a ficar cada vez mais atenta. Onde parecia não ter nada é que estavam as coisas mais incríveis”, conta. Ela aprendeu a abrir os olhos para o inusitado _ como a mulher que, na sua opinião, sintetiza o caráter do seu livro: Dona Pequena. “Esses inventos são como os óculos de Dona Pequena, devem fazer a sociedade abrir os olhos”.

Afinal, como prega com sabedoria o inventor/pintor Nazaré, que circula com telas, tintas e cavaletes montados num carrinho de feira: “De Nova York a Nova Iguaçu não diferem as pessoas”.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Katia Azevedo
    jun 07, 2011 @ 17:45:24

    Cris querida,

    seu blog está muito melhor que a encomenda, rsrsrs. A começar pelo nome. Como essa ideia não surgiu antes???!!!! tudo a ver, rsrsrs.
    Que delícia a histórida da Dona Pequena…
    Orgulho de ter uma amiga querida tão talentosa.
    Beijo enorme
    todo sucesso do mundo!

    Responder

  2. crisramalho
    jun 08, 2011 @ 00:08:36

    que delícia ler isso, muito obrigada, Kátia.
    beijos e leia sempre, sugira, comente…
    Cris

    Responder

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