Berlim

Por Cristina Ramalho

Reconciliar – taí a palavra que mais combina com Berlim. Reconciliaram-se os alemães com seu passado difícil, reconciliaram-se os lados ocidental e oriental da cidade, reconciliou-se a antiga paisagem bombardeada, cara de fim do caminho, com prédios de vidro, futuristas, totalmente transparentes, uma promessa de vida no coração alemão. Berlim hoje tem um quê de frescor, de janela aberta, uma cidade que está toda à mostra: ao lado dos complexos modernos, museus e instalações relembram as dores dos tempos de guerras, de quando os alemães eram os grandes malvados do século; no pedaço onde ficava o Muro, ainda sobram uns bons 70 metros para a gente não se esquecer da história. Tudo à vista. E todos convivendo, na maior: os muitos imigrantes, os modernésimos, as janelinhas com gerânios, os cyberpunks de cabelos coloridos, o salsichão com batatas, as velhinhas sisudas e, se for verão, os pelados no parque. Reconciliar é o verbo.

Olhe ao redor: Berlim não pára de se reinventar e de encarar o passado. Na região onde ficava o Muro está o bairro de Kreuzberg, um pedaço ocupado pelos turcos desde a década de 60, e onde se come o melhor kebab da cidade. Depois deles vieram os artistas, os hippies, os bares e galerias de arte, muitas subterrâneas, e ali, em pequenos porões, acontecem shows de bandas alternativas e performances curiosas. Mas ali também estão dois museus de apertar a garganta: o Judiches Museum, feito de placas de zinco com janelas cortadas feito rachaduras, cujo projeto arquitetônico, de paredes altíssimas, já dá o recado do quanto insuportável foi o Holocausto. O outro, o Haus Am Checkpoint Charlie, traz documentos, fotos e objetos que revelam o que acontecia aos que tentavam cruzar o Muro entre a Berlim Oriental e a Ocidental.

É mesmo em torno do Muro, e no sentido da Berlim Oriental, que você vai ver como a cidade vem transformando sua história. Até pouco tempo atrás, numa área em que restavam terrenos vazios, abandonados, espalha-se agora o impressionante Potsdamer Platz, também conhecido como Sony Center, com megatorres de vidro, uma espécie de minicidade que abriga lojas de grife, restaurantes, sorveterias, coberta por um teto de vidro, e que à noite é iluminada por um incrível jogo de luzes coloridas. Se você seguir e olhar para a direita, vai avistar logo mais um campo de lápides sem identificação, o impressionante Memorial das Vítimas do Holocausto.

Por ali fica a belíssima Catedral de Berlim, ou Berliner Dom. Suba até a cúpula da igreja e você vai enxergar a vista da cidade, além de conhecer um pequeno museu, que conta todas as fases de restauração da catedral, erguida entre 1894 e 1905, durante o governo do Kaiser Wilhelm 2º. Perto dela está o Portão de Brandemburgo, monumento neo-clássico terminado em 1791 e considerado o maior símbolo de Berlim. Construído para celebrar as vitórias prussianas nas guerras, abriga hoje a Sala do Silêncio, administrada pela ONU para os visitantes refletirem sobre a paz. Olha o dedo no passado mais uma vez.

Na seqüência vem a atração mais procurada da nova Berlim: a cúpula de vidro do Reichstag, o Parlamento alemão.Entre e observe a história: o incêndio que destruiu grande parte do prédio, em 1933, ano em que Hitler assumiu o poder na Alemanha; ou o evento promovido pelo artista plástico Christo, em 1994, que “embrulhou” o edifício. Depois suba pela rampa até o topo e aproveite a vista.

Então pegue a bonita avenida Unter Den Linden até chegar à ilha dos Museus, um mais bacana do que o outro. No mais mais de todos, o Pergamonmuseum, você verá pedaços de edifícios importantíssimos de outros períodos da história, trazidos e reconstruídos como um quebra-cabeça, raridades arqueológicas como a fachada do Mercado de Mileto (que os romanos construíram na Ásia Menor, há mais de 21 séculos) e a Porta de Ishtar (erguida na Babilônia 600 anos antes de Cristo). Depois caminhe até a Alexanderplatz, praça que talvez você conheça de nome de um filme do Fassbinder. A praça é a própria cara da Berlim comunista: de um lado, aqueles prédios caixotes de arquitetura stalinista, do outro, a Torre de Televisão, que parece uma nave espacial dos anos 60. Juntinho dali, os edifícios cheios de charme da Mitte, o bairro da moda, com seu quê de EastEnd londrino ou da Vila Madalena, em São Paulo. Olha o dedo no futuro.

Na Mitte e em Prenzlauer Berg, com seus predinhos do século 19, construídos em ruas arborizadas, estão as lojas e os restaurantes mais legais da cidade.Agora, os moderninhos ainda mais underground você vai ver na feira de antigüidades em Friedrichshain, vendendo e comprando relíquias da era comunista. Cartilhas, uniformes escolares, camisetas viraram hits da chamada onda ostalgie (nostalgia do leste), e disputadas como o último modelo da Prada. Se bobear, você vai achar na feira até potes de pepinos em conservaSpreenwald, aqueles que o filho procura para a mãe em Adeus, Lênin. Pensando bem, esse filme sobre uma fervorosa defensora do velho regime que entra em coma durante a queda do Muro e tem o estilo de vida comunista preservado pelo filho é o retrato mais poético do que significa Berlim. Reconciliar-se. Com o passado, com outros jeitos de pensar, com beleza.

Outros:

* No lado ocidental, imperdível é a Kurfürstendamm, também conhecida por Ku’damm, lugar das grifes badaladas. Ali perto está a KaDeWe, a segunda maior loja de departamentos do mundo – só perde para a londrina Harrod’s. Lá estão minirrestaurantes onde dá para provar de tudo um pouco.

O Muro, símbolo terrível da Guerra Fria, foi uma barreira concreta, erguida em 1961, e que chegaria a 155 quilômetros de extensão com 302 torres de observação.

Após a queda do Muro, muitos artistas pintaram sua marca no lado leste, até então intocado. Em 1990, o que sobrou dessa galeria a céu aberto, com mais de 100 desenhos em um quilômetro de concreto, passou a se chamar East Side Gallery. Grande parte dos grafites foi destruída e está sendo restaurada.

O melhor city tour para se fazer é pelo metrô, o S-Bahn, que é a céu aberto, e assim você vê quase tudo. Lindo.

A estação principal de trem deixou de ser a Zoologischer Garten (no antigo lado ocidental) e se transferiu para a Lehrter Bahnhof com vista para os prédios ultramodernos da Mitte.

Na Mitte um dos antigos edifícios que eram squats (prédios abandonados ocupados por imigrantes ou sem teto), o Tacheles, é hoje um centro cultural. Construído em 1907, ele estava caindo aos pedaços quando foi tomado por artistas em 1989. Atualmente funcionam ali um teatro, um cinema, uma galeria de arte, um café, vários ateliês e um jardim de esculturas.

Nos bares você pede uma cerveja, claro (experimente a Dunkles Hefe) e se não tiver lugar, sente-se na mesa de qualquer pessoa, sem problemas.

Kunst und Nostalgie Markt: Museumsinsel, Mitte: Mercado de pulgas imperdível. Aliás, vale rodar os muitos brechós de Berlim. Alguns vendem roupas até por quilo!

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Tânia Bernucci
    set 01, 2011 @ 04:14:05

    Lindas impressões de Berlim, Cris, amei a cidade quando estive lá dois anos atrás e acho que você traduziu muito bem o que vi e senti. O museu judaico é muito particular, uma arquitetura de sensações que me fez chorar. Beijo

    Responder

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